Leitura Medida Provisória 1202/23

Medida Provisória 1202/23

Impressionante a unanimidade da mídia nacional acerca da inconveniência do encaminhamento da Medida Provisória 1202/23, que trata, entre outros assuntos, da desoneração da folha de pagamento de 17 setores da economia. A desoneração, que existe desde o governo Temer, foi recentemente prorrogada pelo Congresso Nacional até dezembro de 2027 e logo vetada pelo Presidente da República. O veto foi derrubado pelo mesmo Congresso, com grande maioria, em reunião conjunta.

A iniciativa do Governo foi considerada pela oposição como uma afronta ao Congresso e classificada como “um tiro no pé” do ministro Fernando Haddad.

Acobertado pela minha santa ignorância política, fico eu a me perguntar como um experiente presidente, já no terceiro mandato, aconselhado por uma equipe de não menor traquejo, cairia na esparrela de, em pleno ano de eleições municipais, tomar uma atitude que provocasse a ira dos opositores e o desencanto dos apoiadores?

Por que faria isso?

As reações à MP 1202/23 eram tão óbvias que me custa acreditar que não tivessem sido consideradas pelos seus formuladores. Algo me sopra nos ouvidos que alguma estratégia ainda não percebida está embutida no gesto governamental.

Por que fazer a MP no último dia do ano?

Por que uma medida provisória e não um mais palatável projeto de lei?

Onde estão os estudos que comprovam os ganhos apregoados pela desoneração de Temer?

Quais os critérios que levaram à escolha de 17 segmentos da economia, e não 16 ou 18? Quem sabe 20?

Seria, como num estudado jogo de xadrez, a perda voluntária de uma peça para melhor se posicionar no tabuleiro?

Não faz parte de um grande acordo entre os atores políticos e econômicos ainda não divulgado?

Não tenho respostas para nenhuma dessas indagações e isso me fez lembrar quando, na adolescência, metido a sabido, questionei uma informação política dada por um primo deputado estadual havia quatro legislaturas. Muito gentil, ele me levou para longe do grupo, pôs a mão no meu ombro e, didaticamente, explicou:

“Meu filho, vou lhe ensinar uma coisa que levei alguns anos para aprender. Na política existem rituais que fazem as pessoas acreditarem piamente que entenderem uma coisa, uma situação, quando, concretamente, nada daquilo que foi supostamente entendida é verdade. Guarde isso pra você, nunca esqueça”.

Não esqueci.

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